Bullying. Por que fazem isso?

Esta semana tive um pesadelo bem desagradável: meu gatinho deu em cima de minha prima e ela correspondeu. Começaram a namorar. Acordei assustada, voltei a dormir e... o pesadelo continuou. Sofri tanto. Acho que, na verdade, "re-sofri": era um Déjà Vu. Mas desta vez havia um agravante. A prima era a Gab e a Gab não faria isso comigo. Tive amigas que eram as "figurinhas carimbadas", mestras em fazer isso comigo. E não era por se tratar de um carinha interessante, não. Era pelo prazer de me atingir. Mas a Gab, não. Era como se fosse algo do tipo "pô, só faltava você. E você não podia. A gente se ama, Gab". Mesmo que uma vez ou outra –quando criança- você tenha debochado por eu ser gorda. Mas baixaria você não faria comigo: você nunca olharia para o carinha de quem sou a fim. Pronto. Toquei no assunto chave. Fui uma adolescente gorda e, como todos sabem, gordas são feitas para serem zoadas, virarem piadinhas, não serem paqueradas e terem seus eventuais namorados roubados pelas magras – atenção: não concordo com isso, mas é o que parecem pensar os magros. Na adolescência, então, esta é uma regra, sem qualquer exceção. Todas estas “regras” foram aplicadas em mim: fui menosprezada diversas vezes por ser gorda. Quando ficava a fim de um cara e ele não queria nada comigo (99% das vezes), ouvia - direta ou indiretamente - que o motivo era mais do que óbvio: como o cara vai gostar de você, Aline? Você é gorda. De uns tempos para cá deram um nome para essa zoação/ maldade: bullying. E não tenho muita certeza de que os tantos estudos que fazem sobre o tema conseguem dimensionar a ferida que fica na alma, para sempre, de quem sofre. Passei por isso na escola, na família. A única pessoa que nunca debochou ou me repreendeu por ser gorda foi meu pai. Todos os outros - íntimos ou não- deram, ao menos uma vez, uma cutucadinha. Mesmo sem querer, lembro das piadinhas das "amigas" e uma pergunta fica martelando: o que leva uma pessoa, que supostamente te quer bem - afinal, frequenta sua casa, participa de sua vida - ser tão malvada? Tão cruel? Que estranha forma de obter prazer: menosprezar uma adolescente chamando-a de gorda. "Chamar" não é o verbo certo. O mais apropriado é "ofender", porque ser gordo não deveria ser xingamento, mas é usado como tal. Não entendo o sádico prazer que uma certa “amiga” tinha em roubar qualquer carinha por quem eu estivesse interessada. Não era autoafirmação, afinal, disputar um cara comigo era como chutar cachorro morto: eu não tinha chances. Eu era gorda e isso eliminava em 132% minhas chances. Era maldade, pura e simples. O porquê talvez eu nunca entenda, mas a consequência disso contribuiu muito para meu complexo de inferioridade que durou muito, muito tempo. E que, de vez em quando, ainda dá as caras. Nem todas as amigas eram agressivas, algumas me tratavam como "café com leite", ou seja, eu era aquela que não representava qualquer perigo: elas podiam ir à uma festa comigo sem correr o perigo de eu receber uma cantada do garoto de quem ela estava a fim. Era doído ser tratada assim. Era uma espécie de "certificado de não atraente". Mas eu via como uma maldade mais branda, passiva até. O que sempre me entristeceu é que elas se esqueciam de que eu tinha coração, sentimentos. Mas para elas era super coerente: sou gorda, logo nenhum carinha vai se interessar por mim. Por minha parte, para não bancar a ridícula, não ousava me interessar por ninguém, afinal, sabia meu lugar na cadeia alimentar da sedução. Por muito tempo trouxe as consequências psicológicas desses "maus tratos". Claro que terapia e maturidade me fizeram superar muita coisa, mas ainda tem muito, muito complexo latente em mim. Eu tenho vergonha de ter sido gorda na adolescência. Meus complexos nascidos na adolescência me fazem travar e colocam mil empecilhos na hora de sair em uma foto, experimentar uma roupa ou pensar em me aproximar de um rapaz. Aos poucos, bem aos poucos, tenho superado isso. Certamente, o que jamais entenderei é o porquê de algumas pessoas sentirem tanto prazer em diminuir o outro. Sadismo, maldade, repetição de comportamento do senso comum? O irônico disso tudo é que muitas daquelas pessoas que me zoavam, e ofendiam, e riam de mim, atualmente deram uma bela "embarangada": as meninas ganharam alguns (vários) quilos, os rapazes ficaram carecas e vários ficaram parados no tempo, estáticos em suas vidinhas casamento-filhos-chopp-trabalho-e-só. Prato cheio para uma revanche, né? Mas já disse: não entendo o prazer de magoar o outro e, em absoluto, eu teria coragem de fazer qualquer menção a isso.

Não sou santa: às vezes me vem aquele diabinho e fala "dá uma zoada", fala "envelheceu mal, hein?". Mas o que isso iria me acrescentar como pessoa? Sigo em frente, com meus complexos de inferioridade mais ou menos abrandados no divã, mas com a certeza de que não me renderei ao jogo baixo do deboche, do escárnio. OBS: Esta foto aqui poderia ser para "sambar" na cara de quem já se deliciou tanto me "xingando" de gorda. Mas eu prefiro dizer que sou eu hoje em dia.

FLIP da qual participei.uma FLIP da qual participei.

#bullying #obesidade

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